Na metade do século 18, mais ou menos na mesma época em que o bandeirante Anhanguera buscava ouro escondido nos rincões do Brasil e fundava a Cidade de Goiás, alguns escravizados que fugiam do trabalho forçado nas minas se refugiaram em um território a cerca de 600 quilômetros daquela que era então a nova capital da província.
Protegido pelas várias serras que o cercam, o lugar resistiu no seu isolamento por séculos. Mesmo após a abolição, em 1888, os kalunga passaram incólumes pelo menos até os anos 1950, quando o mundo exterior alcançou o povoado. Até então, os centros urbanos mais próximas dali eram Barreiras, no interior da Bahia, e Goiânia, ambas a cerca de 500 quilômetros de distância. As jovens capitais Brasília e Palmas nem sonhavam em existir.
Nesse isolamento todo, ao longo dos séculos os kalunga conseguiram construir, mas principalmente preservar um modo de vida e uma cultura próprios. “A gente vivia só com o conhecimento dos mais velhos, da floresta mesmo. Não tinha hospital, muito menos escola”, conta Getúlia, nascida e criada ali, e morta há algumas semanas, aos 68 anos.
Hoje, o quilombo Kalunga, com uma área um pouco menor do que metade do Distrito Federal abriga cerca de 8.000 pessoas em 37 comunidades, que vivem da agricultura familiar e, hoje principalmente, do turismo. Os primeiros visitantes surgiram nos anos 1990, quando foi reconhecido pela Fundação Palmares como sítio histórico e patrimônio cultural.
Mas foi nos últimos 20 anos que os kalunga se tornaram referência no chamado turismo de base comunitária, centrado na valorização das comunidades tradicionais e das suas culturas —justamente por isso, é um modelo de turismo considerado responsável.
Para além de receber e servir, são os próprios quilombolas que desenham e gerenciam toda a atividade turística no local —o que faz toda a diferença não só para eles, que conseguem se blindar dos efeitos negativos do turismo, mas para os próprios turistas, que têm uma experiência essencialmente raiz.
A estrutura não poderia ser mais simples. Na sede do quilombo, que funciona como centro de recepção, as poucas ruas são de terra, e a energia elétrica, novidade que chegou pouco antes da pandemia, ainda falha com frequência. Chuveiro elétrico é um luxo que só funciona às vezes, e ar condicionado não existe —e nem precisa, já que mesmo no verão as noites são frias.
Por outro lado, as cachoeiras escondidas por ali surpreendem até mesmo aqueles que já rodaram pela Chapada dos Veadeiros.
As jardineiras que levam até elas partem do centro de visitantes, vizinho à lanchonete que serve o café da manhã. Os veículos vão até um ponto de apoio, e de de lá partem as trilhas até as quedas d’água. Todas são acessíveis, bem sinalizadas e conservadas pela própria comunidade.
Os trajetos, tanto de carro quanto a pé, são um deleite. Enquanto o sacolejo quebra o gelo do grupo, as pontes de madeira e a poeira vermelha do cerrado dão um clima de aventura ao passeio, seja atravessando a vastidão das paisagens do cerrado ou vencendo grandes pirambeiras que parecem intransponíveis. É interessante notar, por exemplo, como o contraste da vegetação mais alta e frondosa com a aparente secura do cerrado denuncia de longe onde estão os cursos d’água.
No caminho, as guias (boa parte delas é formada por mulheres) não demoram a compartilhar curiosidades sobre o lugar. Elas relembram como foi o trabalho de qualificar as trilhas para dar mais segurança aos turistas, e também apontam, ali na natureza mesmo, as plantas usadas para tratar feridas, inflamações e até anemia —tudo aprendido e ensinado na base da oralidade.
A principal cachoeira do Kalunga é a Santa Bárbara, eleita pela Folha um dos 100 lugares imperdíveis no Brasil. Suas águas cristalinas, com um azul-turquesa mais característico até do Jalapão do que da própria chapada, são hipnotizantes. E o mergulho, melhor ainda, uma vez que o poço é largo e fundo, mas ao mesmo tempo seguro para quem não sabe nadar —os guias também oferecem macarrões de piscina para quem precisar. Dá até para sentar nas pedras embaixo da queda para sentir a força da água.
Já a cachoeira Capivara é a única que dispensa o trajeto de jardineira (pois fica pertinho da sede), mas exige mais preparo físico dos visitantes —é também a mais divertida. A trilha de 1,7 km chega nela pelo alto, onde há um pequeno poço ideal para crianças.
Mas aqueles que conseguem descer mais um pouco, num finalzinho de trilha bastante íngreme, chega ao poço principal, que mais parece uma piscina de borda infinita natural.
A vista para a imensidão do cerrado, ali totalmente preservado pelos kalunga, vai longe. É impossível não fazer uma comparação com as paisagens entre Brasília e a chapada, totalmente tomadas pelas plantações do agronegócio.
Da borda infinita, os guias indicam que a última cachoeira aberta à visitação no território, a Candaru, fica lá embaixo no precipício. Mal dá para ver. O engraçado é que, ao chegar a ela, também não se vê nenhum sinal da cachoeira anterior, lá em cima. Perto delas, a Candaru é a menos interessante, talvez por ficar numa altitude mais baixa, sem grandes vistas. Mas seus dois poços, gigantes, valem a visita mesmo assim.
Mas a maior riqueza do lugar é mesmo a convivência com os quilombolas. A interação com eles mostra, por exemplo, como a preservação daquele paraíso depende muito do domínio do território, frequentemente ameaçado por invasores —atualmente, apesar da demarcação do quilombo, apenas 50% da área pertence oficialmente aos kalunga.
No passado, aliás, era para esses invasores que os quilombolas precisavam se submeter (inclusive sendo assediados para vender os próprios filhos, relato que nos faz lembrar de como a escravidão faz parte da história recente) para garantir um sustento além do que vem daquela terra.
“Hoje não precisamos mais disso nem ir à cidade para vender a nossa produção, porque temos a renda e o movimento do turismo”, diz o líder comunitário Cirilo dos Santos, 71. No final dos anos 1980, ele ouviu pelo rádio sobre uma tal de regularização fundiária, que acabara de aparecer na Constituição, e foi atrás.
Já naquela época, Santos entendeu que o turismo poderia mudar a vida da comunidade, desde que fosse totalmente operado por ela. “Sem o turismo, não teríamos progresso, mas os benefícios tinham que ser organizados pela nossa comunidade, e assim foi feito.”
Com cada vez mais visitantes circulando, o empreendedorismo floresceu. A infinidade de produtos cultivados ali, que inclui até baunilhas (o cheiro fresco delas dá água na boca) está toda à venda na lojinha do centro de visitantes.
Surgiram também pousadinhas familiares e restaurantes, como o Raízes Kalunga e o Gamela’s, onde o público se serve direto nas panelas sobre o fogão a lenha. A variedade de opções é enorme (com arroz, feijão, frango, peixe, muitos legumes), e o sabor é de comida de mãe. Coisa rara.
Tão raro, aliás, quanto a hospitalidade dos kalunga, tímidos e da fala mansa, mas com uma sensibilidade enorme. Ao voltar de um jantar, por exemplo, o grupo em que a reportagem estava foi recepcionado por uma fogueira acesa no quintal da pousada de Cida, o que criou um momento muito genuíno de troca entre o grupo. Uma experiência, como dizem por aí. Mas que, nos kalunga, ainda é só uma simples e despretensiosa cortesia.

