Precisamos devolver o protagonismo do futebol aos jogadores

Precisamos devolver o protagonismo do futebol aos jogadores

Com essa supervalorização dos técnicos na questão tático-estratégica, me parece que no Brasil temos cada vez menos atletas capazes de tomar decisões ousadas

Quando foi que os treinadores tiraram dos jogadores o protagonismo no futebol? Hoje as estrelas são os “profes”, “misters”, “maestros”. Nada contra. São muito importantes no processo, mas não considero os mais importantes.

Vejo um exagero na importância dedicada ao trabalho dos treinadores, à questão tática, aos números, análise de desempenho, estratégia. O jogador está em segundo plano. Precisamos devolver o protagonismo aos atletas.

Há uma boa dose de responsabilidade da mídia esportiva nesse quadro. Excesso de vontade de demonstrar erudição e fornecer uma avalanche de informações que muitas vezes não significam conhecimento.

Além disso, o modelo parece estar amarrado em torno dos treinadores. Entrevista com eles antes e depois de a bola rolar. O atleta faz três gols, tem atuação luxuosa e muitas vezes nem falar após o jogo fala. Mas o treinador é onipresente. Também durante a semana de trabalho.

É o Grêmio do Renato Portaluppi, o Flamengo do Dome, o São Paulo do Diniz, o Palmeiras do Cebola e agora do Abel, o Fluminense do Odair, o Galo do Sampaoli.

Já foi o Flamengo do Zico e do Júnior, o Palmeiras do Edmundo e do Evair, o São Paulo dos Menudos do Morumbi, o Corinthians do Rincón e do Ricardinho, o Grêmio do Renato Gaúcho.

A impressão que fica é que tudo que acontece no futebol foi idealizado pelo treinador. Grandes treinadores dizem que o percentual de participação do treinador no desempenho de uma equipe está na casa dos 30%.

Com essa supervalorização dos técnicos na questão tático-estratégica, me parece que no Brasil temos cada vez menos jogadores capazes de tomar decisões ousadas, de contestar orientações que não estão dando resultado e apresentar alternativas.

Quando a estratégia proposta e trabalhada não encaixa, ou é contestada por fatos do jogo, inclusive aleatórios, quantos dos nossos jogadores são capazes de fazer uma leitura rápida da situação e aplicar o antídoto em campo?

Isso resulta em atletas cada vez mais mecanizados e repetitivos, com pouca capacidade de improvisação e evidentes dificuldades técnicas e de fundamento que não foram corrigidas na base.

Ao final dos jogos, os treinadores expõem suas teses e posições e raramente são contestados. O que pode e deve ser feito de forma democrática, educada e com bons argumentos. Proliferam as teorias de que um jogo horroroso foi bom e teses sobre sistemas de jogo e esquemas táticos que em muitos casos não traduzem o que se viu em campo.

Os jogadores são blindados, raramente falam sobre o tema.

Assim como os treinadores são supervalorizados atualmente, terminam sendo vítimas desse exagero na cotação de suas ações. Por serem colocados como protagonistas de tudo que ocorre com uma equipe, os resultados negativos também são debitados de sua comanda. Fica mais fácil para dirigentes e jogadores esconderem seus erros embaixo do tapete dos professores.

Com isso, muitas boas ideias e profissionais acabam ficando pelo caminho.

Papo para muitos debates mais profundos e sérios que a média geral da discussão sobre futebol no Brasil.

Fonte: GE

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