Escrevo no dia do meu aniversário. A esta altura da vida, quando percebemos que um ano a mais é um ano a menos, a passagem do tempo já não desperta aquela euforia. Mas, vá lá, a alternativa é pior.
Enfim, celebrei os 56 anos como os tiozões de 56 anos gostam de celebrar: com um churrasco na tarde do feriado. Churrasco condizente com a aproximação inexpugnável da terceira idade: a estrela da grelha foi um acém de vaca velha.
Não foi penitência nem masoquismo. A tal da vaca velha anda muito valorizada. E o acém, veja bem, tinha o nome Denver na etiqueta. Custou-me os olhos da cara, uma extravagância de festa.
A vaca velha é um curioso caso de marketing às avessas. São duas palavras que, em outro contexto, afugentariam o consumidor —mas o consumidor desse tipo de carne sabe bem o que está levando.
No imaginário do tio do churrasco (não eu), o bom é um animal jovem (pois macio) e do sexo masculino.
A ideia de que a carne de vaca é inferior fazia sentido na pré-história da pecuária brasileira. Vem de um tempo em que a carne de vacas leiteiras, aposentadas e descartadas sem critério, era vendida junto com a de animais criados especificamente para o abate.
No caso do bife que comprei, vem de um frigorífico em Botucatu (SP): são vacas com 8 a 10 anos de idade que voltam para o pasto para engordar e não fazer mais nada.
O resultado é o retorno da maciez e um sabor bem mais intenso do que a carne do gado jovem.
Quanto ao acém/Denver, aproveito meu aniversário para reconsiderar a posição sobre o rebranding dos antigos cortes de segunda com nomes em inglês.
Já engrossei o coro de quem reclama que é um truque de vendedor para cobrar mais caro por algo que sempre esteve aí. Fui convencido, lendo e experimentando as tais carnes, de que não é a mesma coisa.
Cortes como o Denver e o flat iron são músculos muito pequenos, saborosos e macios dentro de uma enorme peça de carne que, de resto, é boa para ensopar e moer. Se você meter um miolo de acém na churrasqueira, vai se arrepender amargamente.
Para a receita, não espero que ninguém gaste o que gastei na vaca velha, então vou mandar um dos meus acompanhamentos favoritos. É uma cebola que você queima na churrasqueira enquanto o fogo ainda está alto demais, aí espera esfriar, descasca e tempera. Gostosa e simples demais.
CEBOLINHAS QUEIMADAS NA BRASA
Rendimento: 6 a 8 porções
Dificuldade: fácil
Tempo de preparo: 40 a 60 minutos
Ingredientes
- 1 kg de cebolas pequenas, para conserva
- Sal
- Pimenta-do-reino
- Azeite
- Ervas frescas (tomilho, orégano, manjerona) a gosto.
Preparo
- Acenda o carvão na churrasqueira. Enquanto espera a chama baixar para formar brasa, coloque as cebolas na grelha. Queime todos os lados até ficarem pretas, sem dó nem piedade. Reserve
- Quando as cebolas estiverem frias o suficiente para serem manipuladas, descasque-as, removendo o máximo possível das camadas carbonizadas
- Tempere e sirva como acompanhamento de churrasco

