Turismo literário: livros transformam viagens; entenda – 07/05/2026 – Turismo

Turismo literário: livros transformam viagens; entenda – 07/05/2026 – Turismo


Do Mirante do Adamastor, em Lisboa, dá para ver o rio Tejo. Caso leia “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago (1922-2010), também dá para contemplar o fantasma de Fernando Pessoa refletindo sobre o fim, a velhice e a solidão. João Correia Filho, 54, visitou este ponto turístico após ler o livro. “A obra te sensibiliza para aquele lugar. Faz se sentir mais humano”, afirma. É isso que ele chama de turismo literário.

Essa modalidade, segundo ele, permite que os viajantes revisitem destinos sob novos olhares ou obtenham experiências mais reflexivas e profundas a partir de sua bagagem de leitura.

Além disso, o turismo literário oferece uma escapatória da lógica de produção e acúmulo de lugares. “Susan Sontag [escritora, filósofa e ensaísta americana] dizia que fotografar em viagem é uma extensão do trabalho. Produzimos tanto e somos tão explorados que, quando viajamos, nos impomos mais um trabalho para fazer”, diz João Correia.

Para ele, a literatura é um antídoto para esse sistema. “A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos. A literatura permite voltar para o mesmo lugar infinitas vezes, com olhares diferentes. Isso tira a lógica capitalista do acúmulo de fotos, lugares e souvenirs de plástico”, afirma.

Um exemplo está em Lisboa, no Terreiro do Paço (hoje conhecido como praça do Comércio). O local é cenário da obra “Nas Tuas Mãos”, da escritora portuguesa Inês Pedrosa. O romance intercala os discursos de três gerações: Jenny, a avó, escreve um diário sobre um amor não correspondido; Camila, a mãe, rememora a militância política por meio de um álbum de fotos; e Natália, a filha, escreve cartas à avó sobre os conflitos com a mãe e a busca pela felicidade.

João afirma que a leitura transforma a praça turística num lugar carregado de peso histórico e emocional. Não é uma visita fácil. “Visitar o lugar com essa atmosfera criada pela autora é muito prazeroso, mas é forte. É uma cena triste”, relembra João.

Sevilha, na Espanha, também é um terreno fértil para o turismo literário. João percorreu o local acompanhado pela obra “Sevilha Andando”, de João Cabral de Melo Neto. O autor pernambucano escreveu o livro de poemas durante os anos em que morou na Espanha. Ele explica que a paixão do autor pela cidade fica muito clara nos poemas e, por isso, a experiência se torna mágica e emocionante.

A experiência não se limita a capitais europeias ou destinos consagrados. Em Iguape, litoral de São Paulo, João encontrou no conto “A Pedra que Cresce”, do escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960), uma chave para entender a Festa do Senhor Bom Jesus. Camus visitou a cidade ao lado de Oswald de Andrade e imortalizou o ritual numa ficção. A celebração tem quase 400 anos de tradição e João a prestigiou tendo o conto como ferramenta. Ele descreve a experiência como enriquecedora e a leitura como uma ferramenta para ampliar a compreensão do evento.

A própria capital paulista guarda diferentes camadas literárias. O centro, por exemplo, guarda rastros de obras de Oswald de Andrade (1890-1954). Já o bairro Higienópolis é o cenário de “Amar, Verbo Intransitivo”, de Mário de Andrade (1893-1945). Antônio de Alcântara Machado (1901-1935) dedicou uma coletânea de contos intitulada “Brás, Bexiga e Barra Funda” aos bairros homônimos.

João Correia Filho, jornalista e editor, construiu a carreira na intersecção entre literatura e reportagem. Obcecado por livros desde a adolescência, ele cursou jornalismo para se manter perto da paixão. Passou a percorrer o mundo produzindo pautas e foi em Lisboa que surgiu a ideia para criar seu primeiro guia de turismo literário.

João entrou numa livraria e encontrou uma obra de Fernando Pessoa (1888-1935) que não conhecia. O poeta escreveu o livro “Lisboa: O que o Turista Deve Ver” nos anos 1920, quando percorreu e escreveu sobre a cidade preocupado com o esquecimento de Portugal pelo viajante europeu.

Foi a partir deste material que o jornalista decidiu criar o guia. Lançado em 2011, Lisboa em Pessoa venceu o Jabuti na categoria Turismo em 2012 e abriu caminho para mais três obras: os guias literários “À Luz de Paris”, “São Paulo, Literalmente” e “Buenos Aires, Livro Aberto”. Este último, aliás, ele aponta como o destino mais rico para o turismo literário.

“Existe uma relação dos autores com a cidade que é absurda. Ernesto Sabato te leva a passeios incríveis pela cidade. Jorge Luis Borges [1899-1986] e Julio Cortázar [1914-1984] tem histórias que se passam no centro e em alguns bairros. Fui muitas vezes e ainda quero voltar”, afirmou.



Fonte: Folha

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