Para falar um pouco mais da Nova York de 2026, destino que reencontrei depois de 11 anos, quero voltar um pouco à Nova York de 1990, quando vi no Museu de Arte Moderna, o famoso MoMA, a exposição “Altos e Baixos: Arte Moderna e Cultura Popular”. Uma experiência, para mim, transformadora.
Eu ainda não tinha 30 anos e estava formando ainda minhas ideias sobre arte e cultura, mas já sabia que Nova York era uma referência maior. O que vi no MoMA, uma conversa inédita entre a chamada alta arte e a baixa, cristalizou o que eu já pensava: que o mundo é uma fonte infinita de referências artísticas. E o que define isso é o seu olhar.
Mesmo longe da cidade desde 2015, sempre me inspirei por lá. E foi essa mesma inspiração que me guiou nesse reencontro. Se em 1990 vi nas paredes do museu Picassos ao lado de primeiras páginas de jornais, em 2026 saí procurando contrastes assim pelas ruas da cidade.
Às vezes, literalmente. Já contei na coluna anterior sobre o êxtase de ver a cidade do 101º andar do Summit, uma atração relativamente nova de Manhattan. Mas outras alturas me esperavam, como a do Top of the Rock, o sensacional observatório do Rockefeller Center.
Como eu nunca tinha visitado isso antes? Um endereço tão icônico! De certa maneira, fiquei até contente de ter demorado para apreciar vistas que eu só conhecia dos filmes do Homem-Aranha. Assim pude desfrutar de atrações que não existiam tempos atrás.
Por exemplo, um andaime onde você pode reproduzir a famosa foto dos trabalhadores almoçando numa paisagem vertiginosa. Ou o novo elevador, num belíssimo estilo art decô, que, partindo do terraço já no topo, te leva mais uns metros acima para uma visão estonteante do Central Park, do novo contorno arquitetônico de Chelsea –e até da estátua da Liberdade!
Lá embaixo, nas calçadas e subsolos, inúmeras tentações: uma nova livraria McNally Jackson, uma loja Lego gigantesca, restaurantes incríveis como o Naro. Porém, procurei e não encontrei uma loja de revistas, item raro hoje em Nova York.
Para me conectar com a cultura das ruas, fui até o West Village, na Casa Magazines, onde comprei tanto papel na forma de jornais e revistas que fiquei preocupado com o peso da minha bagagem. De lá, desci mais ainda no mapa de Manhattan para visitar a bienal do Whitney Museum.
E foi lá, numa coletiva de artistas, que, como sugerem os curadores da bienal, são relevantes hoje para o cenário das artes nos EUA, que me conectei com a tal exposição que vi em 1990. Era tudo tão vibrante que cheguei a sentir espasmos de alegria.
Na mostra que ritualmente é criticada, nem tudo é brilhante. É de se esperar. Mas tudo está vivo —e falando com a cultura popular. Tanto quanto a Morgan Library fala, também, com a alta cultura.
Nesta viagem, fiz questão de revisitar essa que é uma das minhas bibliotecas favoritas no mundo e tive a sorte de ver uma mostra sobre a arte de contar histórias, com obras que iam de Dürer a Chaplin, de Manet a Keith Haring. Ou seja: mais altos e baixos que se misturavam para me seduzir…
E eu ainda estava na metade do meu itinerário. Sabia que iria descobrir (ou redescobrir) mais conexões assim em Nova York. E que elas não caberiam em apenas uma ou duas colunas. Continuemos, pois, pela cidade no nosso próximo encontro.

