Os holandeses têm uma palavra para o que acontece todo dia 27 de abril em Amsterdã: “oranjegekte“, ou “loucura laranja”. Trata-se do Dia do Rei –”Koningsdag”, em holandês–, a maior e mais popular festa da Holanda. Nessa ocasião, as ruas da capital recebem milhares de pessoas que, vestindo laranja, celebram o aniversário do rei Willem-Alexander. Neste ano, a data marcou os 59 anos do monarca.
A festa lembra o Carnaval brasileiro, comparação que muitos participantes fazem. Para a estagiária de marketing Eduarda Lopes, 23, que participou da celebração em Amsterdã, o Dia do Rei é semelhante.
“Amei ver a cidade toda laranja, as pessoas fantasiadas e se divertindo juntas. Todos dançando e cantando, com várias fantasias diferentes, interagindo entre si e aproveitando a comida de rua. Deu para matar um pouquinho a saudade do Carnaval”, diz.
Ela aproveitou para se fantasiar como uma local: vestiu laranja e misturou cores da bandeira holandesa. Um dos motivos para Eduarda se mudar para aquele país foi justamente a possibilidade de participar do Koningsdag, uma festa que ela sempre acompanhou pela internet. A decisão de se mudar foi tomada no início deste ano.
Já Gabriel Teles, 25, nascido no Rio de Janeiro, acompanhou a festa na Tailândia, rodeado por holandeses que, mesmo longe de casa, mantêm a tradição. “Eu já tinha visto algumas imagens da festa em Amsterdã e fiquei apaixonado. A vibe é incrível, e consegui sentir isso como se estivesse no Carnaval do Brasil”, diz.
Apesar de fantasias, enredos e desfiles organizados não serem obrigatórios, os participantes usam qualquer coisa que se possa imaginar: chapéus de caubói, penas, óculos personalizados, meias com a bandeira da Holanda, bandanas em cães, perucas cor de cenoura e até pintam o corpo inteiro. A festa acontece em qualquer rua, canal ou sacada.
A tradição já tem 141 anos, e as únicas ocasiões em que a comemoração não aconteceu foram durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha ocupou os Países Baixos e a festa foi proibida, e durante a pandemia de Covid-19, que começou em 2020 e se estendeu por cerca de três anos.
A celebração faz referência ao rei que ocupa o trono hoje, mas o costume nasceu em 1885 como uma estratégia política. Na época, o rei Guilherme 3º era impopular, e a família apostou na princesa Guilhermina, de cinco anos, para reconquistar o apoio do povo. No aniversário dela, a monarquia organizou uma grande festa em comemoração à futura rainha, promovendo a união nacional.
O evento se tornou tão popular que passou a ser chamado de Dia da Rainha e comemorado anualmente como feriado nacional. Desde 2014, quando a então rainha Beatrix abdicou do trono, a celebração passou a ser chamada de Dia do Rei, em homenagem ao seu sucessor.
Comércio local é flexibilizado
Às 6h, quando a maioria das cidades europeias ainda dorme, Amsterdã já está acordada. Um dos grandes destaques da festa de rua são as barracas do chamado “vrijmarkt”, o mercado ao ar livre que ocupa as calçadas do centro histórico, montadas ainda antes do amanhecer.
Durante o evento, os vendedores ficam isentos do pagamento de impostos sobre as vendas. Entre os itens autorizados, segundo a prefeitura de Amsterdã, estão roupas, livros, brinquedos e móveis. Alimentos e bebidas, como biscoitos e refrigerantes, também podem ser comercializados, com a única restrição de que não estejam em embalagens de vidro.
Festa cresce e novas regras são aplicadas
A prefeitura de Amsterdã informou, em relatório, que a festa de 2025 foi considerada incontrolável pelo serviço de ambulâncias da cidade. Para o Koningsdag de 2026, a prefeita Femke Halsema anunciou seis novas medidas de segurança, destacando publicamente que a celebração cresceu significativamente.
Entre as medidas, a regra dos barcos –máximo de 12 pessoas além do piloto– será aplicada com mais rigor. Nos anos anteriores, havia certa tolerância. A prefeitura também alertou sobre o uso de barcos com menos de 10 metros de comprimento. Quem descumprir as regras terá que pagar multas de 160 euros (R$ 936,22) no caso de veículos particulares, e 800 euros (R$ 4.681,11) para operadores comerciais.
Festivais pagos nas bordas da cidade agora podem funcionar até as 22h, uma hora a mais do que anteriormente. A medida foi pensada para atrair foliões para fora do centro e reduzir a superlotação.
Além disso, mais equipes de socorristas de bicicleta foram implantadas no centro, e os sistemas de comunicação entre ambulâncias, equipes de primeiros socorros e polícia foram aprimorados.

