Passa das sete da manhã quando o “desayuno” chega com “huevos rancheros”, mexidos com pimenta, cebola e tomate, e os “chilaquiles”, tortilhas de milho cobertas por molho e feijão amassado, além do café. Da sacada do restaurante, o mar de Cortés se abre logo adiante. Come-se diante da vista. Até que um sopro interrompe a linha do horizonte. Em seguida, vem o dorso escuro, a curva pesada do corpo, às vezes um salto inesperado, antes de tudo voltar à superfície lisa da água.
Entre dezembro e abril, sobretudo nos primeiros meses do ano, as jubartes passam a integrar o cotidiano de Los Cabos, na Baixa Califórnia Sul, no México. Onde o deserto encontra o oceano, entre o Pacífico e o mar de Cortés, a manhã começa muitas vezes assim: com o silêncio da água rompido pelo aparecimento repentino de um animal de 40 toneladas.
As baleias não são exceção. Leões-marinhos, golfinhos e tubarões cruzam essas águas em outras épocas do ano. Às vezes, uma arraia rompe a superfície num salto breve, quase um voo sobre o mar. Estima-se que cerca de 30% das espécies marinhas do planeta passem pelo mar de Cortés, dado que ajuda a explicar porque mergulhadores tratam a região como um dos berçários oceânicos mais pujantes do planeta.
É nesse encontro entre o Pacífico e o mar de Cortés que surge um dos marcos naturais mais conhecidos do México. Na ponta sul da península da Baixa Califórnia, uma formação rochosa em arco se ergue sobre a água como uma porta aberta para o oceano. Chamado de El Arco, o monumento natural, reconhecido pela Unesco, tornou-se o principal cartão-postal de Los Cabos.
Todos os dias, barcos de diferentes tamanhos seguem até lá. Alguns fazem apenas o trajeto rápido até a formação de pedra. Outros permanecem horas no mar, com paradas para caiaque, snorkel ou mergulho. Ou simplesmente desligar o motor e passar horas a assistir ao espetáculo da natureza.
Essa movimentação ajuda a entender a dinâmica da região. Los Cabos são, na prática, duas cidades que cresceram voltadas para o mesmo mar. San José del Cabo e Cabo San Lucas estão ligadas por um corredor turístico de cerca de 30 quilômetros. Ao longo dele se concentram hotéis e resorts de luxo, campos de golfe e uma cena gastronômica que chama atenção: são 21 restaurantes listados no Guia Michelin, número expressivo para um destino distante das grandes capitais culinárias.
As duas cidades, no entanto, seguem caminhos distintos. San José del Cabo mantém um ritmo mais vintage. De ruas tranquilas e arquitetura colonial, guarda as origens históricas da região. Foi ali que os jesuítas fundaram, em 1730, a missão que daria origem ao povoado. Hoje, o centro gira em torno da Plaza Mijares e da igreja Misión de San José del Cabo. Dali partem ruas ocupadas por galerias de arte, restaurantes e pequenos ateliês. Em março, a praça se enche para a festa dedicada ao padroeiro da cidade, quando moradores e visitantes se misturam entre música, barracas e procissões.
Cabo San Lucas tomou outro rumo. O antigo povoado pesqueiro transformou-se em um dos pontos mais movimentados do turismo mexicano. Ali, a pesca esportiva, os resorts e a animada vida noturna moldaram a paisagem. Em outubro, a cidade celebra San Lucas, seu padroeiro. De madrugada, barcos partem em procissão até o Arco. À noite, a festa continua em terra, ao som de cumbia, salsa e outros ritmos folclóricos mexicanos. É também da marina que saem a maioria dos passeios para o cartão-postal da região, muitas vezes chamado de Arco do Fim do Mundo
Cerca de 400 mil pessoas vivem em Los Cabos. No ano passado, 3,7 milhões de turistas passaram
pela região, a maioria dos Estados Unidos. Brasileiros, por enquanto, ainda são poucos por lá.
Desde dezembro, a Copa Airlines passou a ligar a Cidade do Panamá a San José del Cabo, sem a necessidade de fazer escala na capital mexicana. Para entrar no país, o visto mexicano é exigido de quem não tem visto americano ou cidadania europeia.
Basta, no entanto, se afastar um pouco das cidades para que o ritmo mude. A cerca de 20 minutos de Cabo San Lucas, o asfalto termina e a estrada de terra e areia segue pelo deserto. No horizonte, surgem três torres de mais de 50 metros de altura. Delas partem cabos de aço que sustentam as “sky bikes”, bicicletas aéreas instaladas no parque de aventura Cactus Tours.
Lá de cima, a península se revela em corte: o deserto de um lado, o Pacífico do outro. O trajeto, com cerca de 850 metros, é apresentado como o mais longo do mundo em sua categoria e pode ser percorrido por até quatro bicicletas ao mesmo tempo. Em certas épocas do ano, enquanto se pedala sobre a paisagem árida, é possível avistar no mar as baleias nadando com seus filhotes.
Ao norte, o cenário muda de novo. A estrada leva a Todos Santos, chamada de “Pueblo Mágico”. Casario colonial, artesanato, restaurantes que trabalham com produtos locais, galerias e ateliês criam um cenário de ritmo lento.
Logo na entrada está o Hotel California, cercado pela história, nunca comprovada, de que teria inspirado a canção dos Eagles. Talvez a lenda permaneça porque combina com o espírito do lugar. Mas Todos Santos interessa menos por um ponto específico do que por sua atmosfera.
Com cerca de 10 mil habitantes, quase 40% deles estrangeiros, a cidade convida a caminhar. Ruas estreitas revelam fachadas coloridas, galerias em antigas casas, portas e janelas abertas onde artistas conversam com visitantes.
Ao cair da tarde, quando a luz baixa sobre o casario, a península mostra outra vez sua medida: depois das baleias, do Arco e do mar aberto, Los Cabos também sabe terminar em silêncio.

